domingo, 14 de outubro de 2012

A Parábola do Rio. Parte 4

— Um fez uma casa aqui. O outro o está olhando. E o terceiro está construindo um caminho sobre o rio.E assim, o primogênito pôs-se a procurar os irmãos. Foi primeiro à choupana de palha, no vale. — Fora, estranho! — enxotou o seu irmão, pela janela. — Você não é bem-vindo aqui! — Eu vim para levá-lo ao lar. — Mentira! Você veio pegar minha mansão! — Isto não é uma mansão — ponderou o primogênito — É uma choupana. — É uma mansão! A mais bela da planície. Eu a construí com minhas próprias mãos. Agora, vá embora. Você não pode ficar com minha mansão. — Você não se lembra da casa de seu pai? — Não tenho pai. — Você nasceu num castelo, numa terra distante, onde o ar é cálido, e os frutos, abundantes. Você desobedeceu a seu pai, e acabou nesta terra estranha. Eu vim a fim de levá-lo para casa.O irmão perscrutou a face do primogênito através da janela,como se estivesse vendo um rosto já visto num sonho. Mas a pausa foi curta, pois, de repente, os selvagens atopetaram a janela também. — Vá embora, intruso! — exigiram eles. — Esta casa não é sua. — Vocês estão certos — respondeu o primogênito. — Mas vocês não são nada dele.Os olhos dos dois irmãos encontraram-se novamente. Mais uma vez o construtor sentiu um aperto no coração, mas os selvagens haviam conquistado sua confiança. — Ele quer apenas a sua mansão — gritaram eles. — Mande-o embora! E ele o mandou.O primogênito foi procurar o segundo irmão. Não teve de ir muito longe. Sobre a ladeira, próximo à cabana, ao alcance da vista dois selvagens, estava o irmão acusador. Ao ver o primogênito aproximando-se, ele alegrou-se: — Que bom que você está aqui para ver o pecado de nosso irmão! Você está sabendo que ele voltou as costas ao castelo? Está sabendo que ele nunca mais falou de casa? Eu sabia que você viria,e tenho anotado cuidadosamente as ações dele. Castigue-o! Eu aplaudirei a sua ira. Ele a merece! Trate dos pecados de nosso irmão.O primogênito falou suavemente: — Precisamos cuidar de seus pecados primeiro. — Meus pecados? — Sim, você desobedeceu o papai.O irmão deu uma risada sarcástica, e esmurrou o ar. — Meus pecados não são nada. Lá está o pecador — acusou ele, apontando para a cabana. Deixe-me contar-lhe dos selvagens que ficam lá... — Prefiro que me fale de si mesmo. — Não se preocupe comigo. Deixe-me mostrar a você quem é que precisa de ajuda — insistiu ele, correndo em direção à choupana. — Venha, nós espiaremos pela janela. Ele nunca me vê.Vamos juntos. — E ele chegou à cabana, antes de perceber que seu irmão mais velho não o seguira.Depois disso, o primogênito encaminhou-se para o rio. Lá,achou o terceiro irmão, afundado na água até os joelhos,amontoando pedras. — Papai mandou-me levar você para casa. O outro nem levantou os olhos. — Não posso conversar agora. Devo trabalhar. — Papai sabe que você caiu. Contudo, ele o perdoará. — Ele pode — interrompeu o irmão, esforçando-se por manter o equilíbrio contra a correnteza. Mas antes tenho de chegar ao castelo. Devo construir um atalho sobre o rio. Primeiro lhe mostrarei que sou digno. Então, pedirei sua misericórdia. — Ele já teve misericórdia de você. Eu o transportarei rio acima. Você jamais será capaz de construir um atalho.

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